sábado, outubro 02, 2004



No tronco do sobreiro


está a sua história retratada


contada nas voltas da casca rugosa


que afago carinhosamente


na troca de segredos.


A tua paciência sábia


guarda memórias de estios intermináveis


e de invernias insuportáveis.


E no meu tronco gravas


essas impressões indeléveis


e dás-me memória que não tinha, amigo sobreiro...


Fico mais sábio e mais capaz...



No gume da asa


está a história do voo


da ave ou da nave


E das almas capazes de o fazer...


o salto sem tempo,


dos tempos que perfazem uma vida


dos lapsos de que não há registo,


passagens para universos paralelos


de zeros e infinitos,


algoritmos de uma existência pensada no absoluto.



A memória de ti


não a encontro já


poeira que és...


chão sem rasto nem pegada,


superfície estéril,


de recusa em recusa confinada ao chão da tua solidão!



A memória de mim...


é o sobreiro e a asa ...


sem ti...


Livre de ser...