terça-feira, agosto 31, 2004

A minha memória de árvore


Está plantada nas areias douradas das miragens do Namibe


Embondeiro e mácua, welvitchia miriabilis..


Ou então nas acácias rubras


Que conhecem o zunir do marimbondo


E o afago do bico do colibri,


Ou ainda nas casuarinas


Que ecoam a cantiga do vento


Que mansamente as afaga e conta segredos.


A minha memória de água


Está na corrente do Kwanza másculo


E na onda violenta que varre o areal


Da praia Azul e da praia Amélia,


Na chuva torrencial que emprenha os riachos da Leba e da Chela


E os faz parir tragédias...


A minha memória de ar


Está no cheiro intenso da terra suada


A respirar depois da enxurrada,


E no odor intenso da goiaba, da manga, da nocha e do mirangolo


Apodrecendo ao sol intenso...


A minha memória de terra...perdi-a um dia,


quando ainda menino disse adeus chorando...


à minha África.